LIVROS

O CAMINHO DA VOLTA

JOSÉ LUIZ PEREIRA DA COSTA

ROMANCE A SER PUBLICADO (JÁ REGISTRADO)

REENCOTRO EM DAKAR

JOSÉ LUIZ PEREIRA DA COSTA

ROMANCE A SER PUBLICADO (JÁ REGISTRADO)

José Luiz Pereira da Costa tem com este “A Terra Prometida”, publicado em papel, sua segunda obra, seguindo-se ao romance histórico Benin, também editado por Chiado – Grupo Editorial, Portugal e Brasil.

              A referência “em papel”, é porque na fronteira de um tempo em que livros eletrônicos disputam espaço com aqueles, José Luiz traduziu três grandes escritores afro-americanos – Du Bois, Wright e Booker Washington – e os colocou para uso universal e gratuito em seu site na Internet e canais do YouTube. Também traduziu contos e poesias de grandes nomes do período chamado de “Renascimento do Harlem”, gravando-os com sua voz e, da mesma forma, os disponibilizando em canais do YouTube. A pedido da Universidade Cornell, para sua nova coleção de livros em formato .pdf, teve ali incluído “Zumbi – a Brazilian Hero” – a vida de Zumbi dos Palmares, em Inglês.

              Jornalista por vocação e, a um tempo, por profissão, teve sua produção em jornais e revistas espalhados em vários lugares. Deu ênfase ao registro do caminho das colônias africanas que, nos anos 1950/60 se tornavam independentes das potências europeias. Este material, com correspondências e recortes das matérias que publicou, foi diligentemente organizado pela professora Rejane Santos de Toledo e está disponibilizado no que intitulou “Projeto Cultural Dacosta”, que assim pode ser buscado no Google.

              Palestrante em Universidades como a Federal do Rio Grande do Sul e as americanas Southern, de Baton Rouge, Louisiana, e Brown, de Providence, Rhode Island – precoce organizador de um seminal clube para jovens negros – José Luiz oferece neste “A Terra Prometida” o lastro histórico de uma experiência singular de vida, em sua produção fantasiada em atraente prosa e com lances de pura poesia.

              José Luiz Pereira da Costa nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.

Um pouco sobre o livro...

Prefácio do Livro "A Terra Prometida"

A experiência negra moderna encontra na narrativa ficcional, e não na narrativa histórica, o seu meio privilegiado de expressão. Enquanto a “operação historiográfica” comunica fatos e contextos atrelada aos imperativos do real e da prova documental, que não deveriam se aplicar do mesmo modo às evidências e testemunhos deixados por dominadores e dominados, as linguagens ficcionais, menos submetidas às convenções e regras da “objetividade científica”, mergulham com maior liberdade nos domínios da subjetividade da pessoa negra, devolvendo-lhe a dignidade que a ninguém foi dado o direito de privar.

É provavelmente por isto que grandes intérpretes da história e cultura africana e afro-americana tenham recorrido a modalidades da linguagem poética, alegórica e simbólica em seus textos, de modo a acessar o soul, a alma negra. Por isto valeria a pena refletir um pouco mais nas implicações filosóficas, estéticas e formais do conhecido aforisma senghoriano, que atribui aos gregos o próprio da racionalidade e à negritude o próprio da emoção. Onde se pensou (e isto é bastante sintomático) haver subserviência do sensorial ao racional, poderíamos imaginar existir senão equivalência, ao menos distinção entre perspectivas de valor atribuídas à objetividade e à subjetividade.

Nada a estranhar que a imaginação, o performático e o sensorial costumem ser ordenados em posição inferior à objetividade quando as regras de classificação e de enunciação do pensamento alinham-se a uma perspectiva em que a pessoa negra, assim considerada com finalidade discriminatória, depreciativa, encontrava-se privada de sua humanidade plena mediante os expedientes da escravização, da colonização e de sua decorrência imediata, o racismo. Também se pode compreender por aí o valor diferencial da contribuição de obras ficcionais ou autobiográficas como Black Boy, de Richard Wright (1945), Raízes, de Alex Haley (1976) e A cor púrpura, de Alice Walker (1982), nos Estados Unidos, ou de Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves (2006), no Brasil, para a fixação de uma imagem propositiva da identidade negra.

Ao folhearmos os livros de historiadores(as) profissionais que se dignaram a registrar a vida social nas primeiras décadas da república brasileira, salvo exceções, ficaremos impressionados não com o que dizem, ou como dizem, mas com o que deixam de dizer acerca das populações de pele escura. Parecem ter sido ofuscados pela branquitude do olhar seletivo, parcial e privilegiado de seus(uas) autores(as). A forma canônica desta narrativa teima em fazer pouco caso do que é no mínimo razoável, isto é, a existência de camadas inteiras de gente negra vivendo em sua maior parte em liberdade precária, porém como cidadãs. Poderíamos identificar nessa perspectiva a “canonização da escravidão” ou a “escravidão da memória”.

A leitura do romance de José Luiz Pereira da Costa, aqui prefaciado, reforça a intuição acima exposta sobre liberdade criativa e potencialidade formal da narrativa ficcional para a comunicação da “experiência vivida do negro” de que nos falava Franz Fanon em um dos capítulos mais contundentes de seu Pele negra, máscaras brancas, em que pese tal experiência ter vindo da privação e da dor. O tráfico transatlântico, tragédia maior da modernidade - cujos promotores continuam responsáveis por um trauma coletivo de grande proporção –, ao produzir a dispersão forçada do berço ancestral africano obrigou os/as milhões de desterrados(as) a encontrar meios de reinventar o seu destino em situação de diáspora. A(o)s expropriados(as) não restaram apenas os seus corpos, mas também a força espiritual para resistir ao processo de desumanização; a opressão não atingiu a plenitude de seu soul, e neles(as) se manteve intacta a capacidade de sonhar, de criar, de ir além.

Como os fluxos transatlânticos mobilizaram pessoas de distinta procedência e origem, forçando-as a sobreviver em condições absolutamente adversas, a Diáspora Negra dispôs aquelas pessoas para a convivência, mantendo-as abertas ao novo, à incessante mudança, em nome da fé no passado, nas raízes, na tradição. Forjada nos movimentos recorrentes acionados por sucessivas dispersões, a cultura negra moderna resultou de intensas trocas nas quais os referenciais originários foram a todo o tempo evocados, engendrando e recriando novos futuros. Neste paradigma da itinerância, repleto de sobreposições e de fusões é que os(as) negros(as), a começar pelos(as) africanos(as), jogaram o jogo do mundo de que nos falava Léopold Senghor, e mesmo sem serem donos(as) dos signos com os quais foram obrigados(as) a jogar, tiveram que, domesticando-os através da linguagem, encontrar as partes de uma humanidade amputada, ultrajada, fragmentada... e reconstituí-la.

A admiração de José Luiz Pereira da Costa pela cultura negra moderna afro-norte-americana confere ao seu romance um traço particular. Leitor voraz dos intérpretes maiores desta cultura, tradutor de alguns deles, não é de admirar que encontremos frases, argumentos ou ideias inspiradas em pensadores do porte de W. E. B. Dubois, ou eruditos menos conhecidos, como o teólogo James E. Cone; e de nos emocionarmos com os versos de rara beleza e sensibilidade deixados pela primeira escritora negra afro-americana, Phillis Wheatley – morta aos 31 anos, em 1784, liberta da escravidão mas em extrema pobreza e abandono. Também por isto, arriscaríamos afirmar ser este belo romance um exemplo bem sucedido do transnacionalismo negro na literatura pois nele o alcance das fronteiras étnico-raciais e culturais, para nosso regozijo, ultrapassa em muito o das fronteiras nacionais, e no meio delas o mundo negro assume a proporção que merece independente do quanto tenha sido menosprezado ou silenciado.

Na estrutura narrativa de A terra prometida, a ficção, segundo entendemos, é um meio para a reconexão e a busca de uma identidade ancestral parcialmente perdida. Em Benin, primeiro romance escrito por José Luiz, publicado em 2013, o tema do reencontro é explorado pelo autor na descrição do longo exílio de familiares diretos do derradeiro obá do Benin após a ocupação colonial inglesa na África ocidental, um em direção aos Estados Unidos, outro rumo ao Sul do Brasil. No presente romance, escrito em 2006, o sentimento de pertencer a uma origem comum também é observado em pessoas negras originárias do hemisfério Norte e do hemisfério Sul, ou situadas entre os dois lados do atlântico. Na antiga Colônia Africana de Porto Alegre dos idos dos anos 1930-1940, a experiência compartilhada por afro-norte-americanos e afro-riograndenses desvela a ambos os grupos ângulos novos de olhar mundos originais recriados em sítios distantes, mediante elos de ligação do soul. Fragmentos de uma africanidade residual da qual o benzedor Pompílio é um dos depositários alimentam o espírito inquieto de Reinald e atraem a atenção de seu irmão Austin, representantes austeros de uma vivência africano-americana atravessada pela rigidez da ética protestante negra metodista.

Quanto a Mestre Juvenal, o protagonista do romance, ele próprio um integrante da “geração do 13 de maio”, descendente indireto de uma cativa, monitor da Faculdade de Engenharia, artesão de estatuária africana sem nunca ter ido a África ou estudado este continente, tem as linhas de rumo de sua existência alteradas durante a jornada solitária em busca do sítio de Palmares na Serra da Barriga. É a viagem que lhe proporciona a oportunidade de conhecer o rico negociante de origem axânti, Kofi Turkson, de obter notícias sobre a África e descobrir a existência de Tetê Quarshie (1842-1892) – importante personagem da história da República de Ghana, próspero negociante, empresário e empreendedor a quem é reconhecida a introdução do cultivo do cacau em seu país.

A ascendência de Mestre Juvenal merece um comentário a parte. Como sucede com diversas biografias de africanos do continente e da diáspora, sua referência maior de ancestralidade encontra-se no lado feminino, e tem início com a história inspiradora de Adouá, a benzedeira africana reduzida em cativeiro por insistir em salvar o seu povo. Seu destino muda de rumo no navio negreiro, durante a dolorosa travessia do oceano - a assombrosa “passagem do meio” densamente explorada por Paul Gilroy em seu Atlântico Negro (2001). Neste momento, da posição de vítima ela é alçada a protagonista ao salvar o traficante de escravos que a arrancara de sua terra e, mais do que isso, ao juntar-se logo depois a ele e constituir uma família que passou a carregar consigo a mistura do sangue de opressores e oprimidos. Sua decisão prova uma vez mais a extraordinária capacidade de amar e perdoar enaltecida em canções espirituais da tradição gospel afro-americana, como Amazing Grace, composta em 1773 pelo antigo traficante de escravos John Newton.  

 Na medida em que a leitura do romance avança, personagens, cenas e acontecimentos são retratados em sucessivos encontros, às vezes fortuitos e às vezes prolongados e intensos, em que a vida cotidiana transcorre sem dar justificativas ao silêncio da história, nem pedir licença a quem quer que seja. Sentimentos, afetos, saberes e aprendizados conferem força a tanta gente diferente igualada pelas condições impostas ao mundo negro. Em tal cenário, a Colônia Africana assume as feições de um microcosmo desta humanidade vilipendiada e agora recuperada em sua integridade. Vez por outra, todavia, o leitor é surpreendido pela rapidez com que o romancista nos força a voltar para a dura realidade circundante. Embora pouca atenção tenha sido reservada ao mundo dos brancos neste território negro caracterizado talvez como um oásis, talvez como uma ilha, ainda assim fora dele há bondes, submarinos, e tremendas fatalidades!

A maneira pela qual A terra prometida convida os(as) leitores(as) a uma negociação com a história encontra correspondência em outros títulos do romance afro-americano contemporâneo, em que o ficcional problematiza, questiona e recria o passado, refundando a memória do cativeiro. Em Kindred: laços de sangue de Octavia Butler (1979), o argumento principal gira em torno da jovem californiana negra Dana, que é involuntariamente transportada da época em que vivia, 1976, para uma plantation em Maryland no início do século XIX, nos tempos da escravidão. Já em Blonde Roots  Bernardine Evaristo (2009) recria a história dos primórdios da modernidade em tom satírico e paródico ao deslocar o escravismo para plantations situadas no Japão, local de destino da protagonista, Doris Scagglethorpe, que, junto com outros(as) milhares de escravos(as) brancos(as) de origem anglo-saxônica são levados(as) em cativeiro por traficantes africanos do Reino Unido de Grande Ambossa[1].

A estratégia empregada por José Luiz Pereira da Costa propõe outra alternativa de acessar o passado e reconstituir a memória afro-diaspórica. A reconexão de Mestre Juvenal não envolve diretamente a África-continente distante, mas a África presentificada em Palmares durante o episódio de sua imersão nas águas salgadas do Atlântico do litoral do Nordeste brasileiro - ponto provável de passagem na chegada de seus ancestrais. A comunidade palmarina que se apresenta em sua visão onírica não é uma mera agremiação de escravos fugitivos, mas uma sociedade de gente livre. Durante o êxtase, ele mesmo torna-se artífice da comunidade, ajudando com os seus conhecimentos a erguer suas primeiras habitações. Isto tudo sob a liderança não de um indivíduo qualquer ferido na integridade moral pelo cativeiro, mas de Tetê Quarshie, protagonista de uma África altiva - personagem transformado em ícone cultual pelas mãos do velho artesão que, ao retornar da viagem, parece ter renascido.

Tal evocação confirma uma vez mais a centralidade da imagem de Palmares como símbolo maior de liberdade na literatura afro-brasileira. É provável que o primeiro registro poético deste vínculo profundo, subversivo, encontre-se no poema “Saudade do escravo”, publicado em 1859 por Luiz Gama em Primeiras trovas burlescas de Getulino, onde se pode ler:  

Escravo – não, não morri,

Nos ferros da escravidão;

Lá nos Palmares vivi,

Tenho livre o coração!

Nas faces ensangüentadas

Sinto as torturas de cá;

Deste corpo desgraçado,

Meu espírito soltado

Não partiu ficou-me lá!”[2]

 

 Com esses apontamentos esperamos ter desvelado ao público leitor parte do itinerário de uma jornada intelectual, espiritual e afetiva repleta de surpresas e ensinamentos, que confere ao tempo inúmeras possibilidades de apreensão.

Em junho de 2019.

 

José Rivair Macedo

Departamento de História – UFRGS



[1] Yogita GOYAL. “Black diaspora literature and the question of slavery”. In: Leslie ECKEL; Claire ELLIOTT (eds). Edinburg Companion to Atlantic literacy Studies. Edinburg: Edinburg University Press, 2016, p. 150: www.academia.edu/35204431/Black_Diaspora_Literature_and_the_Question_of_Slavery  (acesso em 26/06/2019)


[2] Zilá BERND (org). Antologia da poesia afro-brasileira. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2011, p. 38.



BENIN

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